Pompeia | Euro Cine

            Pompeia (2014), dirigido por Paul W. S. Anderson (1965), apresenta-se inicialmente como um épico histórico moldado pela fórmula clássica do cinema comercial contemporâneo: um herói de origem humilde apaixona-se por uma mulher pertencente à aristocracia, enquanto forças políticas e sociais impedem a concretização desse amor.

            Entretanto, reduzir o filme a uma simples narrativa romântica seria ignorar as múltiplas camadas simbólicas que atravessam sua construção.

            Sob a superfície do espetáculo visual, da ação e dos efeitos especiais, encontra-se uma reflexão sobre poder, ganância, imperialismo, desigualdade social e, sobretudo, sobre a fragilidade humana diante das forças da natureza.

            A cidade de Pompeia surge como uma metáfora grandiosa da civilização que acredita ter domesticado o mundo.

             A Roma do século I d.C., retratada na obra, representa uma sociedade convencida de sua própria eternidade.

             O império aparece como uma máquina de expansão territorial, econômica e simbólica que busca transformar tudo em mercadoria: terras, povos, corpos e até sentimentos.

            Nesse contexto emerge Milo (Kit Harington – 1986 ), escravo celta sobrevivente de um massacre promovido pelo exército romano. Sua trajetória ecoa o arquétipo do herói trágico estudado por Joseph Campbell( 1904 – 1987) , cuja jornada é marcada pela perda, pelo exílio e pela busca de sentido em um mundo governado pela violência.

            A destruição de sua aldeia não é apenas um episódio biográfico; ela simboliza a própria lógica do imperialismo. O senador Corvus, interpretado por Kiefer Sutherland (1966), personifica aquilo que Thomas Hobbes (1588 – 1679) identificaria como a busca ilimitada por poder.         

            Corvus não deseja apenas governar; deseja possuir. Seu interesse por Cássia ( Emily Browning -1986) não nasce do amor, mas da lógica da propriedade.

            O sentimento transforma-se em apropriação. O desejo converte-se em domínio.

            Nesse aspecto, o filme aproxima-se das análises de Karl Marx ( 1818 – 1883) acerca da mercantilização da vida. Tudo pode ser comprado. O império funciona como uma gigantesca engrenagem econômica baseada na circulação de riqueza, escravos e privilégios.

            Os denários, dracmas e sestércios não aparecem apenas como elementos decorativos de época, mas como símbolos de uma estrutura social que mede o valor humano pela capacidade de acumulação.

             Pompeia revela uma sociedade em que as relações sociais já são profundamente mediadas pelo dinheiro, antecipando mecanismos que seriam posteriormente identificados por Marx como elementos constitutivos do capitalismo.

            A cidade torna-se, assim, uma espécie de laboratório histórico onde se observa a formação de desigualdades estruturais.

             A aristocracia romana habita mansões luxuosas enquanto escravos lutam pela sobrevivência. A arena dos gladiadores converte-se em espetáculo político. O sangue transforma-se em entretenimento.

            Aqui é inevitável recordar as reflexões de Guy Debord  (1931 – 1994) em sua teoria da sociedade do espetáculo.

            A violência não é ocultada; ela é exibida, consumida e celebrada. O sofrimento humano converte-se em espetáculo destinado a reforçar a ordem social.

            Essa lógica do espetáculo possui profundas relações com o conceito romano de “Pão e Circo”. O poder não governa apenas pela força militar, mas pela manipulação dos desejos coletivos.

            A arena funciona como um teatro ideológico onde a população é conduzida a admirar justamente os mecanismos que a oprimem. Séculos mais tarde, essa mesma lógica seria observada por Michel Foucault (1926 – 1984) ao analisar as relações entre poder, disciplina e controle social.

Pompeia filme

            O espetáculo da punição não serve apenas para entreter; serve para educar os corpos e consolidar hierarquias.

            Do ponto de vista psicanalítico, Pompeia oferece uma leitura particularmente interessante.

            O desejo de Corvus por Cássia pode ser interpretado à luz de Sigmund Freud (1856 – 1939) como expressão da pulsão de dominação. O amor é deslocado para o campo da posse.      Não se deseja o outro como sujeito, mas como objeto. Já    Milo representa uma figura marcada pelo trauma. Seu passado retorna constantemente sob a forma de lembranças e fantasmas, aproximando-se daquilo que Freud denominava compulsão à repetição.

             A violência sofrida continua operando silenciosamente em sua subjetividade.

            Por outro lado, a interpretação de Jacques Lacan (1901 – 1981 )  permite compreender que o desejo nunca encontra plena satisfação.

            Corvus acredita que possuir Cássia preencherá seu vazio existencial. Entretanto, quanto mais tenta controlar, mais evidencia sua própria falta. O objeto desejado permanece sempre inalcançável. Sua obsessão revela não uma força, mas uma profunda fragilidade narcísica.

            A catástrofe vulcânica introduz outro nível de interpretação. A erupção do Vesúvio rompe brutalmente todas as distinções sociais construídas pelo império.  Nobres, escravos, comerciantes, soldados e governantes tornam-se igualmente vulneráveis.

            O vulcão emerge como símbolo do Real lacaniano: aquilo que escapa à linguagem, ao controle e às estruturas simbólicas da civilização.

            Nenhuma riqueza pode negociar com a lava.

             Nenhum decreto do Senado pode interromper o avanço das cinzas.

            Nesse ponto, o filme aproxima-se das reflexões de Martin Heidegger (1889 – 1976 )  sobre a condição humana. O homem moderno acredita ser senhor do mundo, mas a experiência da morte revela a precariedade de sua existência.

            Toda a grandiosidade de Roma mostra-se ilusória diante da força geológica que reduz templos, mercados e palácios à mesma condição de ruína.

            Essa crítica ao antropocentrismo encontra ecos em pensadores contemporâneos como Bruno Latour (1947 – 2022 ) , que questiona a separação entre humanidade e natureza. Pompeia evidencia justamente a falência dessa divisão.

             O império constrói uma narrativa de domínio absoluto, mas o Vesúvio recorda que a natureza permanece como agente histórico capaz de redefinir completamente os rumos da civilização.

            A análise pode ser aprofundada mediante uma aproximação com as reflexões de Naomi Klein (1970) em sua obra “A Doutrina de  Choque”. Embora o filme retrate acontecimentos do século I, sua narrativa dialoga surpreendentemente com questões contemporâneas.

            Klein argumenta que crises e catástrofes frequentemente são utilizadas como oportunidades para reconfigurações econômicas e políticas.

             Pompeia apresenta uma espécie de versão arcaica desse processo: uma sociedade organizada em torno da expansão econômica, da exploração humana e da crença no crescimento ilimitado até ser confrontada por um evento natural que desmonta completamente suas estruturas.

            O diálogo de Milo sobre a águia romana possui igualmente uma dimensão simbólica relevante. A águia era o emblema máximo do império, representação visual do poder universal romano. Contudo, ao longo da história, símbolos semelhantes seriam apropriados por regimes autoritários modernos. O fascismo de Benito Mussolini (1883 – 1945 )buscou inspiração direta na iconografia romana para construir uma narrativa de grandeza nacional.

             O filme sugere, ainda que indiretamente, como certos imaginários políticos atravessam séculos e reaparecem em novas formas de centralização do poder.

            No campo da teoria cinematográfica, Pompeia dialoga com a tradição do cinema-catástrofe inaugurada por produções como The Towering Inferno (1974) , Titanic (1997)  e 2012 (2009).

            Em todos esses casos, uma história íntima de amor é inserida dentro de um cenário de destruição coletiva. O romance funciona como mecanismo de identificação emocional enquanto a catástrofe assume a função de espetáculo visual.

            A estrutura narrativa também remete aos épicos históricos como Gladiator ( 2000), dirigido por Ridley Scott (1937). Tanto Milo quanto Maximus (Russell Crowe – 1964) são personagens que enfrentam o aparato político romano após perderem suas famílias para representantes corruptos do poder imperial.

            A diferença fundamental reside no desfecho: enquanto Gladiador encontra uma espécie de redenção heroica, Pompeia conduz seus protagonistas para uma tragédia inevitável.

            Sob a perspectiva de teóricos como André Bazin  (1918 – 1958), o fascínio do cinema por narrativas históricas reside justamente na capacidade de ressuscitar mundos desaparecidos.

            Pompeia utiliza tecnologias digitais para reconstruir uma cidade extinta há quase dois mil anos. A arqueologia e o cinema encontram-se aqui em um mesmo gesto: ambos tentam tornar visível aquilo que o tempo destruiu.

            Por sua vez, Siegfried Kracauer  (1889 – 1966) argumentava que o cinema possui uma afinidade especial com a materialidade do mundo.

             Nesse sentido, a representação da destruição de Pompeia não é apenas entretenimento; é uma forma de confrontar o espectador com a dimensão física da história. As ruínas tornam-se testemunhos da fragilidade das civilizações.

            Ao final, a verdadeira protagonista do filme não é Cássia, Milo ou Corvus. É a própria catástrofe. O Vesúvio surge como uma força impessoal que dissolve todas as ilusões humanas.

             A ganância dos poderosos, os projetos imperiais, as divisões de classe, os conflitos políticos e os romances individuais desaparecem sob a mesma chuva de cinzas. A natureza impõe um limite absoluto à pretensão humana de controle.

            Pompeia transforma-se, portanto, em uma alegoria sobre a vaidade das civilizações. Sua mensagem ultrapassa a reconstrução histórica e alcança questões profundamente contemporâneas.

             Em um mundo marcado por crises climáticas, colapsos ambientais e desigualdades crescentes, o filme recorda uma verdade desconfortável: nenhuma estrutura de poder é eterna.

            Como já observava Friedrich Nietzsche (1844 – 1900)  , as construções humanas mais grandiosas podem desaparecer, mas a realidade permanece indiferente aos nossos desejos.

            Sob as cinzas de Pompeia repousa não apenas uma cidade, mas também a ilusão recorrente de que a humanidade pode colocar-se acima da história, da natureza e dos próprios limites de sua condição.

            A complexidade de Pompeia torna-se ainda mais evidente quando se abandona a leitura superficial do filme como mero espetáculo histórico e se passa a observar a maneira como seus personagens são organizados dentro da mise-en-scène.

            Mais do que indivíduos, Milo, Cássia, Corvus e Atticus (Adewale Akinnuoye Agbage – 1967)  funcionam como forças simbólicas em permanente tensão.

            A composição dos enquadramentos, a arquitetura monumental, a utilização das arenas, dos corredores, dos espaços abertos e fechados, bem como a constante presença do Vesúvio ao fundo da narrativa, fazem com que o cenário não seja apenas pano de fundo, mas um personagem invisível que participa ativamente da construção dramática.

            A noção de mise-en-scène, amplamente desenvolvida por teóricos como André Bazin, envolve a organização dos elementos visuais dentro do quadro cinematográfico. Bazin defendia que a profundidade de campo permitia uma maior liberdade interpretativa ao espectador, preservando a ambiguidade do real.

             Em Pompeia, embora se trate de uma produção fortemente apoiada nos efeitos digitais, existe uma preocupação constante em criar uma espacialidade que evidencia as relações de poder.

Pompeia

            Os nobres aparecem cercados por colunas, jardins e estruturas elevadas, enquanto os escravos são enquadrados em corredores estreitos, celas e subterrâneos. A geografia do espaço reproduz a geografia social.

            Sob esse aspecto, a obra aproxima-se das análises de Gilles Deleuze (1925 0 1995)  sobre a imagem-movimento.

            Para Deleuze, o cinema não apenas representa acontecimentos, mas produz formas de pensamento. A movimentação de Milo dentro dos espaços romanos traduz visualmente sua condição existencial.

             Ele está sempre deslocando-se entre fronteiras: entre a vida e a morte, entre a liberdade e a escravidão, entre o passado traumático e a possibilidade de um futuro. Sua jornada constitui uma travessia ontológica.

            Milo é talvez o personagem mais profundamente marcado pela tragédia clássica.             Sua existência recorda os heróis estudados por Aristóteles (384 a.C – 322 a.C)  na Poética. Como Édipo ou Aquiles, ele está submetido a forças maiores que sua própria vontade.

            Seu destino parece traçado desde a infância, quando testemunha o massacre de seu povo. A memória desse acontecimento torna-se a matriz de sua identidade. O personagem não luta apenas contra Roma; luta contra o trauma.

            Sob a ótica da psicanálise contemporânea, particularmente das formulações de Slavoj Žižek (1949)  , Milo pode ser interpretado como um sujeito cujo desejo é estruturado por uma perda original.

             Ele não busca apenas justiça. Busca recuperar algo que desapareceu para sempre. O problema é que aquilo que foi perdido não pode retornar. Assim, sua trajetória assume um caráter melancólico. Cada combate representa uma tentativa de preencher uma ausência impossível de ser preenchida.

            A arena dos gladiadores torna-se então uma metáfora do inconsciente. O espaço onde os homens lutam até a morte corresponde ao espaço onde impulsos reprimidos emergem violentamente.

            Nesse sentido, a leitura de Carl Gustav Jung (1875 – 1961)  mostra-se particularmente fecunda.             Milo encarna o arquétipo do guerreiro, mas também o da sombra. Sua violência não é apenas destrutiva; ela é constitutiva de sua própria sobrevivência.

             O personagem precisa integrar sua agressividade para continuar existindo.

            Atticus, por sua vez, representa uma dimensão diferente da experiência humana. Enquanto Milo é movido pelo passado, Atticus é movido pela esperança. Sua obsessão pela liberdade faz dele uma espécie de figura existencialista. Há algo profundamente camusiano em sua atitude.

            Como o herói absurdo de Albert Camus (1913 – 1960)  , Atticus sabe que vive em um mundo injusto, mas continua lutando mesmo assim. Seu desejo de liberdade não decorre da crença na vitória, mas da necessidade ética de resistir.

            A amizade entre Milo e Atticus constitui um dos aspectos mais interessantes do filme. Em uma narrativa dominada por relações de posse e dominação, a amizade aparece como uma forma alternativa de vínculo humano.

            Essa relação pode ser interpretada à luz das reflexões de Hannah Arendt (1906 – 1975) sobre a importância do espaço compartilhado entre indivíduos livres. Em meio à brutalidade do império, a amizade torna-se um ato político.

            Já Cássia ocupa uma posição particularmente complexa. Embora o roteiro a insira inicialmente dentro do arquétipo da jovem aristocrata apaixonada pelo herói, sua função simbólica ultrapassa essa simplificação.

            Ela representa uma consciência crítica surgindo no interior da própria elite romana. Seu desconforto diante da violência lembra as análises de Norbert Elias (1897 – 1990)  sobre o processo civilizador.

            Cássia percebe que a sofisticação cultural da aristocracia convive com níveis extremos de brutalidade institucionalizada.

            A personagem funciona como um ponto de tensão entre privilégio e consciência moral. Diferentemente de Corvus, ela compreende que o poder não legitima automaticamente a autoridade ética.

             Essa percepção aproxima-a das heroínas trágicas da antiguidade, especialmente Antígona.

             Ambas desafiam estruturas políticas em nome de princípios considerados superiores à ordem estabelecida.

            Corvus, por outro lado, talvez seja o personagem mais interessante sob uma perspectiva filosófica. Ele não é apenas um vilão convencional. Representa uma forma específica de subjetividade política.

            Sua personalidade aproxima-se daquilo que Max Weber (1864 – 1920)  identificava como a racionalização instrumental do poder. Corvus não age movido por paixão irracional.        

            Pelo contrário. Seus atos seguem uma lógica calculista.

             Pessoas tornam-se recursos. Relações tornam-se estratégias. O mundo converte-se em objeto de administração.

            Essa característica faz dele uma figura profundamente moderna. Embora viva na Roma antiga, sua mentalidade aproxima-se dos burocratas analisados por Zygmunt Bauman(1925 – 2017)   ao estudar as condições que possibilitaram os grandes sistemas de violência do século XX.

            O mal não surge necessariamente do ódio. Muitas vezes surge da capacidade de transformar seres humanos em números, funções ou propriedades.

            A atuação de Kiefer Sutherland reforça essa dimensão. Seu Corvus raramente explode emocionalmente.

             Sua crueldade manifesta-se através da serenidade. Tal construção aproxima-se daquilo que Hannah Arendt denominou “banalidade do mal”. O horror não se apresenta sob a forma monstruosa. Surge através da normalidade administrativa.

            A própria cidade de Pompeia pode ser interpretada como um grande palco teatral. Essa ideia aproxima o filme das reflexões de Erving Goffman (1922 – 1982)  acerca da representação social. Todos os personagens desempenham papéis. Os senadores representam autoridade.

            Os gladiadores representam bravura. Os escravos representam submissão. Entretanto, a catástrofe destrói o palco e revela a fragilidade das máscaras.

            . Gladiador, Ridley Scott utiliza a Roma imperial para discutir honra e corrupção.

            Em Ben-Hur (1959)  , dirigido por William Wyler (1902 – 1981)  , a narrativa gira em torno da redenção espiritual.

            Já em Spartacus (1960)  , de Stanley Kubrick (1928 – 1999), a escravidão é abordada como questão política.

            Pompeia combina elementos desses filmes, mas acrescenta uma dimensão ecológica raramente presente no gênero.

            A erupção do Vesúvio transforma-se em um agente narrativo semelhante ao oceano em Titanic. Não se trata apenas de um desastre natural. Trata-se de uma força que desorganiza completamente as estruturas sociais existentes.

            Sob essa perspectiva, a obra aproxima-se das reflexões do chamado ecocinema, corrente teórica associada a autores como Scott MacDonald e Adrian Ivakhiv. O ambiente deixa de ser cenário passivo para tornar-se sujeito ativo da narrativa.

            A presença constante do vulcão no horizonte produz um efeito semelhante ao conceito de sublime desenvolvido por Edmund Burke (1729 – 1797)  e posteriormente aprofundado por Immanuel Kant (1724 – 1804).

            O sublime emerge quando o ser humano confronta algo tão grandioso que excede sua capacidade de compreensão.

            O Vesúvio é exatamente essa força. Ele fascina e aterroriza simultaneamente.

            Essa dimensão visual conecta-se também às formulações de Sergei Eisenstein (1898 – 1948)   sobre o conflito como princípio estruturante da imagem cinematográfica. Em Pompeia, cada quadro parece organizado a partir de oposições: escravo e senhor, amor e violência, civilização e natureza, ordem e caos, liberdade e dominação. O filme encontra sua energia justamente no choque entre essas forças.

            Entretanto, talvez sua dimensão mais profunda resida na percepção da finitude.   O Vesúvio funciona como um gigantesco memento mori (lembre-se que vai orrer). Tudo aquilo que parecia permanente revela-se transitório.

            O império, os palácios, as riquezas, as instituições políticas, os exércitos e os privilégios desaparecem sob as cinzas. Nesse sentido, o filme aproxima-se das reflexões de Walter Benjamin (1892 – 1940)  acerca das ruínas históricas.

            Para Benjamin, cada monumento da civilização é também um monumento da barbárie. Pompeia evidencia precisamente essa dupla condição. A grandiosidade romana foi construída sobre conquistas, massacres e escravidão.

            Quando a cidade desaparece, resta apenas a arqueologia. Restam corpos petrificados, edifícios destruídos e fragmentos de memória. O que o cinema realiza, então, é uma tentativa de ressuscitar esses fantasmas.

            Como observava Christian Metz (1931 – 1993), toda imagem cinematográfica possui algo de espectral. O cinema faz viver aquilo que já morreu. Pompeia, enquanto filme, transforma-se em uma sessão espírita da história.

            Por isso, sua narrativa ultrapassa os limites do romance histórico. O amor entre Milo e Cássia não constitui o verdadeiro centro da obra.

            O centro é a confrontação entre a arrogância humana e a indiferença do universo.

            O Vesúvio não distingue classes sociais, crenças, nacionalidades ou privilégios. Sua destruição estabelece uma igualdade radical diante da morte.

             Nesse momento final, desaparecem as diferenças entre senador e escravo, entre vencedor e derrotado. O que permanece é apenas a condição humana compartilhada.

            Talvez seja justamente essa a dimensão filosófica mais poderosa do filme: a percepção de que todas as formas de poder são temporárias.

            Impérios caem, sistemas econômicos desaparecem, ideologias envelhecem e civilizações transformam-se em ruínas.

             A montanha permanece. A terra permanece. O tempo permanece.

            E o homem, por mais que tente ocupar o centro absoluto do mundo, continua sendo apenas um habitante provisório da história.

Pompeia

Alemanha – Canada – Estados Unidos 2014

Elenco – Kit Harington, Emily Browning, Carrie-Anne Moss, Adewale Akinnuoye-Agbaje, Kiefer Sutherland

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