HQ’s Entrevista | Fernando Lima

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O entrevistado de hoje é jornalista formado pela Universidade Federal do Ceará, mas foi nos desenhos que ele se encontrou, com diversos personagens criados e passando por diversos gêneros, ele consegue atingir todas as faixas etárias, então, com vocês: Fernando Lima.

“(…) o brasileiro não tem o costume de se levar muito a sério. Por isso funcionamos tão melhor fazendo paródias” – Fernando Lima

1 – Vamos começar falando sobre seus personagens. Como surgiu a ideia de criar o “Dragão do Mar”?

Bom. Eu e meu grande amigo JJ Marreiro estávamos discutindo a relevância de heróis submarinos, tal qual o Namor e o Aquaman, que perderam muito sua popularidade nos últimos anos. A minha sugestão era ligar o personagem a questões ambientais e de sustentabilidade. Outra coisa que acabou sendo incorporada, até de uma forma bem orgânica, a medida que o personagem ia sendo construído foram elementos da cultura afro-brasileira.

Dragão do Mar.

2 – Você pode falar um pouco sobre seus poderes e origem?

Primeiro, cabe aqui uma explicação. Eu e o JJ Marreiro trabalhamos em parceria no selo editorial que ele criou, o Laboratório Espacial e sempre tentamos trazer um elemento de nostalgia nas HQs que publicamos. Ele bebe muito na fonte dos quadrinhos da era de ouro e eu já me inspiro nos desenhos animados da Hanna Barbera da década de 60. Heróis como o Homem-Pássaro, Space Ghost e Galaxy Trio, que tinham aventuras curtas e diretas ao ponto e dos quais não se sabia nada da origem.
Dito isso, todos os personagens tem sim uma história de origem, que nos ajuda em muito construir todo o resto do universo dele. O Dragão do Mar era um jovem filho de pescador de uma vila do interior do Ceará, que ao terminar o curso de Engenharia de Pesca, voltou à vila de seus pais para ajudar nas dificuldades que a comunidade enfrentava. Ele foi atacado em alto mar por capangas de um rico empresário, que praticava pesca predatória e deixado para morrer no oceano. A entidade que personifica a consciência das águas reconheceu o potencial do jovem e apareceu para ele  — na forma de Iemanjá — e ofereceu poderes para que ele pudesse efetivamente proteger os oceanos. Ele recebeu o título de Dragão do Mar, mas não é o primeiro na linhagem de protetores a receber esse nome.
Ele tem grande força, pode respirar sob a água e recebeu uma espada e um escudo. A espada lança raios e pode virar um tridente, além de dar a ele algum controle sobre as águas. Ao nadar, ele pode se mover a uma velocidade incrível, e apesar de, normalmente, não poder voar, ele pode assumir a forma de um gigantesco Dragão alado. Esse poder ele só usa em último recurso, pois teme perder o controle sobre a natureza da fera e não conseguir voltar à forma humana.

3 – O mesmo queremos saber do “Fantasma Escarlate”. Como surgiu o insight para criação de tal personagem e aproveite para falar sobre sua origem e poderes.

Essa é  uma história curiosa.
Eu havia sido chamado para uma festa a fantasia, que iria comemorar o aniversário de uma querida amiga, a @lyladellatorre. Encontrei um agasalho com capuz em um brechó no centro da cidade e, a partir dele, criei um “uniforme” de super herói para ir a festa.
O visual ficou tão interessante que alguns amigos me cobraram o desenvolvimento daquele personagem.
A primeira HQ com o herói foi publicada no site www.armagem.com (que hoje é www.hqbrasil.xyz) e acabou fazendo bem mais sucesso do que eu esperava.
Quanto à origem, em vez de apenas contá-la, convido vocês a lerem a HQ que mostra a origem do personagem aqui.

4 – Você tem mais personagens? Ou pensa em criar mais alguns?

No momento estou trabalhando numa personagem chamada Suzy Saturno, que será apresentada nas páginas do Fantasma Escarlate. Tenho outros personagens no forno que só poderão ser introduzidos depois que a Suzy Saturno estiver estabelecida, porque suas origens meio que se interligam. Fora das HQs de super-heróis, tenho personagens com elementos sobrenaturais na série que intitulei Fortaleza das Trevas. Vampiros, magos elementais e outras criaturas. Tem ainda as tirinhas de humor da Mabel e dos Sobreurbanos.
E sempre tem ideias novas pipocando, o segredo é saber peneirar direitinho para ver o que vai funcionar ou não.

5 – No exterior encontramos vários quadrinhos em que existe uma sensualidade excessiva, muitas vezes com um roteiro bem aquém do esperado, e quando vem um artista nacional e transfere para suas páginas mulheres e homens sensuais eles são fortemente criticados. Você não acha que existe um grande preconceito quando tratamos de assuntos nacionais?

Como dizia o Renato Russo; “O mundo anda tão complicado…”
É muito difícil — principalmente hoje em dia — fazer algo que não vá esbarrar nos pontos de vista de alguma pessoa ou grupo, mas a verdade é que críticos vão existir sempre.
Tratar dos assuntos nacionais sempre é complicado, por que o brasileiro não tem costume de se levar muito a sério. Por isso funcionamos tão melhor fazendo paródias.
A criminalidade, a corrupção, os nossos problemas políticos e sociais são tão profundos quanto a descrença em uma solução para eles. O que leva à impossibilidade de se acreditar que algo tão lúdico quanto um herói fantasiado possa fazer qualquer diferença numa realidade como a nossa.
A nova geração de quadrinhistas aqui em Fortaleza vem usando os quadrinhos para falar de temas sociais e até para espantar alguns fantasmas pessoais. Ao seu modo eles estão abrindo um novo espaço e obtendo um público diferente para as HQs.
Meu conselho é bem simples: faça aquilo que você ama. Escreva sobre algo que você goste e domine, desenhe dentro de uma estética que você ache agradável. Se você gostar do seu trabalho as chances são de que alguém mais também vá gostar. Senão, bom… pelo menos você se sentiu bem fazendo aquilo.

6 – Como você lida com os haters da internet?

Rapaz. Se tem algum, até agora não se manifestou. Já recebi algumas críticas e opiniões, mas sempre foram colocadas de forma bem educada.
Acho que se aparecer algum, vou usa a tática dos Pinguins de Madagascar — “Acene e sorria! Apenas acene e sorria!”

7 – Jogo rápido

Personagens preferidos?
Capitão Marvel (Shazam!)
Superpato
Doctor Who

Filmes preferidos?
Predador 2
Garotos Perdidos
De Volta para o Futuro

Melhor história em quadrinho que você leu?
Sandman, pelo conjunto da obra.

Melhor livro?
O Amuleto (Stephen King e Peter Straub)

Melhor herói nacional?
Capitão Gralha, por toda a história dos “bastidores”. Para quem não conhece é só procurar “As Aventuras Perdidas do Capitão Gralha”.

8 – O que o Fernando Lima com toda experiência que adquiriu ao longo dos anos diria para o Fernando Lima do passado?

Seja mais paciente, menos acomodado e redobre o cuidado com os cupins.

9 – Para finalizar. Quem é você?

Sou um contador de histórias e um desenhista, mas também um jornalista formado pela Universidade Federal do Ceará, que fez parte da primeira formação da Oficina de Quadrinhos da UFC na década de 1980. Atualmente sou também administrador do site HQBrasil.

Fernando, o HQ’s com Café agradece o tempo concedido. Desejamos sucesso nessa sua caminhada, e se você quiser falar alguma coisa, essa é sua hora.

Agradeço a oportunidade e o interesse no meu trabalho.
Quem quiser conhecer mais sobre os personagens pode encontrar quadrinhos para leitura gratuita no www.hqbrasil.xyz e muita informação sobre projetos e nosso selo de quadrinhos no http://laboratorioespacial.blogspot.com.br/

Um grande abraço e nos vemos no futuro!

Todas as imagens foram cedidas pelo autor. 

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Henry Braga

Assisto preferencialmente o que não está na moda, gosto de livros, quadrinhos, séries e filmes. Também sei admirar DC e Marvel (sim, é possível), ainda tenho meu Super Nintendo. Seinfeld, Anos Incríveis e Watchmen são algumas de minhas preferências.