Euro-Cine | A Garota Dinamarquesa

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A questão da transsexualidade, exala, procedimentos para um campo analítico para nos perguntarmos: o que é o sexo, e como se utilizar do sexo? E o que seria sexualidade e opção sexual?

Wilhelm Reich (1897 -1957) coloca o termo “organum”, como um procedimento natural da natureza humana, que venha exalar novos caminhos, para um comprometimento ético do prazer.

Todavia, em “A Garota Dinamarquesa”, contempla uma arte, que enfoca conflitos entre o que pode culminar entre o absurdo, e também uma louvável transposição de valores, de um atávico sentimento comportamentalista entre o belo e o comum.

Belo, pois está uma louvação para que sublinhassem que somos livres para, agastar novas decisões, para um preâmbulo humanístico, pelos quais, não dominamos nossos sentidos de inteligência, nas noções de uma frieza plena de espírito, e que faça da sexualidade, replicante para o conhecimento, que o corpo possui uma clara extensão daquilo que sentimos, e pensamos, como uma livre manifestação do nosso personalismo.

A frieza, não como uma dádiva de controle, e sim, em um sincretismo a moldar novos, conceitos, para um parnasianismo de conjugação das vontades.

Uma vontade, angariada na semântica questionadora centrada, para um clivo, de volúpia, em lutar contra tradicionalismos, de uma sociedade que detém as flâmulas na demarcação de suas atitudes para julgar seu princípio morais adornados no senso-comum.

Seu personagem principal Einar (Lili) deixa um gênero interpretativo inquietante a comorbidades na luta entre o sexo, e sua aceitação perante um sentimento, do platonismo que não contenha unicamente a pederastia como objetivo.

O redescobrimento “shakesperiano”, para uma efervescência da emoção, a regra social vigente não se faz jus, para um acompanhamento do hipocampo de ideias, que seja consumada em vetores a uma biologia da mente, que estimule novos paradigmas no jugo do “amor livre”.

Um amor, que não fique comiserado, para uma arte subjugada unicamente a especialistas.

A lógica comportamental da aniquilação do bem-estar do próximo arraiga uma educação com formatos, aos quais, o diferente, não está presente e sim ausente, para um vazio de bajular “nichos”, de traquejos, para uma transsexualidade clara em seus objetivos e desejos.

Desconstruir o riso que uma orientação sexual antagônica, aos devaneios da exasperação do cristianismo moldura, em explosões mentais, na contingência do espírito livre, na leniência dos processos cognitivos, do compreender, dialéticos fatores sociais, o desafio da arte como contestação do que se denomina real.

Uma concepção desmedida da história.

O corpo e o que fazemos do corpo constitui um sujeito lúdico, para o ego, na modernidade, já que não há prognósticos, para o que se compreende como nefasto.

A transsexualidade, anormal ou normal no livre-arbítrio, mas e o preconceito?

O andrógeno caminha junto com arte.

Ao longo do século XX, temos exemplos como David Bowie (1947 – 2016), que levou seu lado estético camaleônico, para níveis espaciais, entre a problemática da atuação nos palcos, bem como a repetição nos oblíquos seguimentos de uma música mutante de sentido de identidade.

Freddy Mercury (1946 – 1991) oscilou entre o sentimento heterossexual, da “moral burguesa, bem como a luta contra a discriminação da AIDS, como uma metáfora da saúde coletiva operante”, segundo a escritora e crítica de arte Susan Sontag (1933 -2004).

Um sentido “do corpo”, para a filosofia hedonista, não adianta usurpar princípios para uma metafísica sexual, ou a um cinema de contestação da moral trans ou sexual.

Podemos conter uma opção sexual polivalente, porém sem o prisma conservador da eugenia, nutrindo o zelo pelo próximo.

Não há um cunho, claro para uma solidão, nos sentimos sós, mas não estamos sozinhos.

O “pop” escatologia da promiscuidade.

Deidade para o “pater”, de exageros e mais exageros.

O artista Einar Mogens Wegener (Eddie Redmayne, 1982) (que interpretou o físico Stephen Hawking, 1942) , e que depois passa a se chamar Lili Elbe, demonstra sintonia com uma transposição da realidade, ao qual a questão de gênero e sexo, foge de tabus milenares impostos por um cristianismo, imiscuído a uma conservação de sua base doutrinária, em relação a uma relativa, caracterização do lado demoníaco em não se aceitar, como “Deus” fez cada um dos seus filhos.

Um relativo senso de humanismo desvairado, levado também a ultrapassar os limites entre o certo e o errado, faz com que Einar comece a conter um relativo senso de desconstrução de um imaginário sexual, baseado nos tradicionalismos, da sociedade burguesa europeia do inicio do século XX, bem como levanta posicionamentos sobre como elencar patamares para um criticidade no que se diz respeito à natureza humana, sem levar ao sínodo, da marginalização, a questão de estar sendo dono do seu próprio corpo e o que se faz com ele.

Uma educação, com lampejos doutrinação comportamental, desperta caminhos para uma tipologia, de dialética da opção existencial, em relação à identidade humana, proporcionando caminhos propedêuticos, que não estão diretamente ligados ao senso-comum das pessoas, realizando fugas holísticas da burocracia estagnada pelo Estado, mudando o sentido que o indivíduo, é responsável por sua própria maneira de enxergar e experimentar as várias formas em se produzir, fixações mentais que vão para além da questão do corpo.

Um corpo que sofre, com os preconceitos de uma burguesia decadente, assombrada os princípios dos ideais Socialistas, e que também busca na “arte”, um sentido para arquitetar um viés de arcabouços sentimentais e intelectuais, fugindo de prognósticos do controle individual, anunciado  pela “carroça medieval”, bem como aufere com desenvolvimento da psicanálise, uma diatribe de oportunidades para uma compreensão de como o sexo, interfere diretamente na vida das pessoas, não propriamente por sua “práxis” e sim como uma alternativa de vida.

Einar ou Lili, não pode causar o principio de uma patologização da mudança sexual, bem como eleva para uma genealogia do conhecimento, como diretrizes filosóficas em torno do cinema, ajudando, para uma maturação de psicologismos que possam entender como a mente humana, carece de prosseguimento a um “modus vivendi”, que faça efeito a projeções educativas, de prosseguimento a um cinismo comportamental, escancarando deontologias a um cancro maiêutico de destruição do livre-arbítrio, como em levar um espaço de debates em torno das questões de gênero.

Soren Kierkegaard (1813 – 1855), “coloca o desespero humano”, como um sinal, para a busca de novos êxitos de saberes que possam proporcionar, uma ontologia de conhecimento para suportar o peso diário de uma vida que não possua atrativos e audácia, para detrimentos intelectuais flexionados em reflexões acerca de como se portar diante a opção da maioria diante um determinado esteio populacional.

Vejamos que nos anos de 1920, a questão “trans”, soa como um atentado para o Bolchevismo, e bem como o “ovo da serpente” o Nazismo.

Não há uma designação clara para os devaneios de que o corpo possa causar, e Sigmund Freud (1856 – 1939), luta para o reconhecimento de sua ciência baseada no entendimento dos desejos mais profundos da alma humana.

Outrora!

Mesmo que uma questão sexual seja abarcada dentro dos domínios da arte, uma semiologia para uma polifonia de cadencia a novos fronts de identificação corporal enfrenta uma forte perseguição tanto dos meios acadêmicos como dos regimes políticos.

O reino da Dinamarca iria enfrentar podridão do Nazismo, porém seu cenário nos tempos de Einar (Lili) demonstra um conservadorismo, que não deixa adjacentes para uma descaracterização de ir contras as máculas do “desespero humano” kierkegaardiano.

Nosso corpo aquém da formação de nossas ideias produz fantasmas terríveis em torno de novos enlaces de aceitação perante o outro.

Não há uma disciplina de respeito pelo desejo próximo, e sim à manutenção da tradição da heterossexualidade.

Uma heterossexualidade totalitária, descente nos valores de um “kalos” moderno, que possa unir a candura pela liberdade de se proclamar uma tendência sexual, que seja diferente da maioria, sem correr o risco de virar um modelo perfeito, para se experimentar a uma camisa de força de algum sanatório europeu.

Essa tendência à questão “trans” bem como a homossexualidade, fez, por exemplo, Marcel Proust (1871 – 1922) em sua densa obra Em Busca do Tempo Perdido, elevar um “noir” de ferocidade ao conservadorismo exorbitante que habitava ainda o “velho continente”.

Aquém disso, décadas depois ilustres artistas “trans”, em sua maneira de se vestir e se comportar, vão fazer da música e da literatura, uma arma de provocação perante as atribulações de uma herança cultural maldita deixada pelas Duas Guerras Mundiais, de padronização moral, tendo em Little Richard (1932) por exemplo, um representante legítimo, de preceitos a uma manifestação cultural extravagante, estruturada, na destruição de princípios, de uma ontogênese inconsciente em se proclamar o corpo unicamente como sendo homem e mulher, ou menino e menina.

Outros ícones também fizeram isso, vejamos que Elton John (1947) em suas canções e George Michael (1963 – 2016), lançam olhares céticos em relação a um amor, que esteja exclusivamente voltado a normatização de ângulos heterossexuais, e promovem uma união entre a reivindicação de direitos para trans, gays e lésbicas através de um “pop”, que contenha camadas ideológicas ao ativismo, e luta contra preconceitos sexuais.

Claro que em A Garota Dinamarquesa, não pode haver uma alusão historiográfica para uma “longa duração”, de organização de elementos de contestação para uma nova moral de opção sexual.

Bem como, não deixar de ser um claro alerta para a destruição de paradigmas, que limitem uma transposição, de decadentes eufemismos, que venham a julgar o caráter através da estética e um torneamento corporal, que faça uma incisão neurótica entre a beleza da obra divina e a promiscuidade de preconceitos, construída por uma imagística patética de valores antropológicos, minimizando a opção de cada um em escolher o que deseja “ser” independente da ordem do discurso vigente.

A obra de arte como uma janela para o mundo, pode também ocasionar o contrário, como um sendo um sinal de automatização do conhecimento bem como do comportamento.

Usando da questão da “virtú” maquiavélica, vejamos que a sexualidade, entoa um sinal de alarde para uma geração, que busca ao longo da junção entre corpo e mente ocasionar diâmetros de lutas contra um medo tênue de discriminação, e também na realização de um projeto de vida, que não contenha a massificação, e sim anuncie um reconhecimento de polivalentes sentidos andrógenos para uma filosofia do corpo, e em como lançar esse corpo diante os meandros de um conservadorismo macabro.

O cinema de época, também extenua um sentimentalismo como um sentido trágico da vida, confluído na luta entre a inovação, com transfigurações de um cinismo eloquente diante as camadas mais luxuriosas, não somente no cunho do prazer carnal e sim na provocação e em apoiar uma subjetividade que esteja longe das premissas em gozar, da sacralização de paralaxes que não compreendam um transhumanismo, contendo a ética e o respeito pelas mais vorazes manifestações que o corpo humano possa empreender.

Tanto que Einar, antes do seu outro “eu” tomar forma, entra em um cunho de conflitos intrapessoais, elencando diretrizes conflituosas no maniqueísmo entre seguir aquilo que a sociedade qual vive deseja, ou em civilizar, prosseguimentos para um escopo de vivência que venha a fugir dos tradicionalismos aos quais necessita suportar para manter seu equilíbrio mental.

A arte como forma de desafinação, de uma física de anulação a consagrações ideológicas, que não possam propiciar liberdade, civis, bem como intelectual, nos diâmetros a um tecnicismo, e lúgubres ditames, que não façam valer, uma organicidade de ideias, para o bem comum.

A concentração de sistêmico “controle social e moral feito pelas tradições” ao qual exala Eric Hobsbawm (1917 – 2012) faz um jugo, de produção intelectual, que esteja banhada pelo temor, o que alimenta plácidos para uma polarização da audácia, realizando irrupções filosóficas, arraigada pela descriminalização, e contaminando uma história, que venha contribuir, para o combate idealístico a minar cartesianismo entre o certo e o errado.

O errado se faz certo, no momento em que os elementos mentais, produzam sinais que se façam prevalecer, para um clivo intelectual, lapidado ao endurecimento de novos prognósticos de visões de mundo, bem como ao modo de “ser” de cada um, lutando contra um existencialismo frenético, de escolas de vida, que não ensinem corretamente os ajustes de uma moral, que não preze pelo novo.

A transsexualidade lança, questionamentos em como a sociedade ocidental herdou tabus, vistos como um falsificacionismo da democracia, deixando exposto o cânone da  rejeição em atitudes a uma revolução sexual que não leve exclusivamente o corpo como base.

Einar ou Lili fazem um “eu” dentro de vários “eus”, sedimentando um lirismo teórico, na busca de redescobrir, o que é a modernidade, diante as sombras de doutrinas que fazem um jogo frenético, entre o que é moralmente aceito, e o que é condenado.

Não cabe condenação de querer mudar o que a natureza ou Deus criou, e sim realizar uma caridade, em extenuar uma corporeidade de novos adendos de argumentações diante do que seria um ser humano.

Unicamente, definido pela sua condição biológica, ou por seus grilhões comportamentais e subjetivistas?

Ou pela sua capacidade psíquica de decidir o que é bom ou mal para si mesmo, independente do espaço sociobiológico e social que esteja inserido, bem como aquém de suas ideologias?

Ser um homem feminino, não fere o meu lado masculino…

Dados Técnicos.

A Garota Dinamarquesa (The Danish Girl).

Filme lançado em 2016.
Contém 1 hora e 59 minutos de duração.
Direção: Tom Rooper.
Elenco: Eddie Redmayne, Alicia Vikander, Ben Whishaw…
Nacionalidade: Reino Unido – Estados Unidos – Alemanha

Sinopse: Cinebiografia de Lili Elbe (Eddie Redmayne), que nasceu Einar Mogens Wegener e foi a primeira pessoa a se submeter a uma cirurgia de mudança de gênero. Em foco o relacionamento amoroso do pintor dinamarquês com Gerda (Alicia Vikander) e sua descoberta como mulher.

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