Black Mirror | 15 milhões de méritos “e sua vida entregue ao sistema”

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Não irei comentar todos os episódios de Black Mirror, só aqueles que mais me chamarem a atenção. Como você já sabe, eu comecei assistindo a série pela terceira temporada, mas resolvi “começar ela do jeito certo”.

Depois do “Hino Nacional“, um episódio que é fortíssimo, no qual, creio eu, muita gente já tenha abandonado a série ali. Passamos para “15 milhões de méritos”. 

O conceito desse episódio “é simples”. O mundo todo é virtual. Grande parte da população é escrava de um sistema, suas funções se dividem, temos os responsáveis pela limpeza, e a grande maioria anda de bicicleta para gerar energia, com “esse trabalho” elas ganham algumas moedas (méritos) para gastar com um Avatar. Fim.

Mas na ponta do iceberg temos um programa de auditório. Lembra muito aqueles programas estilo “Qual é o Seu Talento?”, do SBT. As pessoas vão até esse local para mostrar o que elas tem de melhor, na grande esperança de virarem celebridades e “saírem” da vida de escravidão.

Pois bem, temos aqui um episódio mostrando a futilidade da tecnologia, pessoas trabalhando para comprar itens para seu “bichinho virtual”, comidas enlatadas e programas inúteis com uma audiência televisiva gigantesca.

Até parece que estou falando dos dias atuais, mas ainda me refiro ao episódio em questão. Ali as coisas mostradas são bem piores do que as que acontecem hoje. Mas eu gostaria que você se atentasse para o personagem Bingham “Bing” Madsen (Daniel Kaluuya). Ele fez o que fez para ajudar Abi (Jessica Brown Findlay). Só que as coisas não ocorreram do jeito que ele esperava, então ele se “rebelou” contra o sistema.

Ele foi ao programa Hot Shot, ameaçou se matar, falou que todo mundo ali era alienado, que estava cansado de receber miséria e, quando ele começou a “implantar” sua ideia na cabeça dos telespectadores, os jurados ofereceram uma condição de vida um pouquinho melhor para ele. Resultado? Bing regressou ao sistema.

Para e pense. 

Quantas vezes pensou em largar o emprego e abrir sua empresa? – Mas nunca abriu, afinal, “falta tempo”.

Quantos concursos você já prestou? – Estudou ou foi na base do “Deus me ajude”?

Quantas vezes você viu que nosso país é um lugar corrupto e fez algo para mudar sua vida? – Reclamar no Facebook não conta, o que vale é o trabalho duro, noites perdidas de sono para adquirir conhecimento e melhorar seu futuro e das pessoas que o cercam.

Enfim. Quantas vezes você se rebelou contra o sistema e ao primeiro sinal de fracasso desistiu?

É, a vida é assim mesmo. Todo mundo quer, alguns tentam, mas pouquíssimos pagam o preço. Os valores se invertem cada dia mais, a vida “anda mais corrida”, o fim de semana passa rápido, o dinheiro acaba e sobra mês, você reclama de tudo, mas não move uma pena para sair do lugar. Bem, talvez seu lugar seja ai mesmo, apenas assistindo os “Hot Shot” da vida.

Leia mais sobre Black Mirror.

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Henry Braga

Assisto preferencialmente o que não está na moda, gosto de livros, quadrinhos, séries e filmes. Também sei admirar DC e Marvel (sim, é possível), ainda tenho meu Super Nintendo. Seinfeld, Anos Incríveis e Watchmen são algumas de minhas preferências.

  • Marcus Olimpio

    Apos o “Pare e Pense”, no texto, vêm uma série de perguntas que, ironicamente, REMETEM a atitude dos apresentadores do Hot Shot para com o personagem Bing: Cair na ilusão do empreendedorismo, ou no conforto do funcionalismo público, ou evocar o nacionalismo, para depois perguntar sobre as ações que só afetam o indivíduo (ou, no máximo, a família). São formas de nos isolar e nos cooptar para continuar servindo ao sistema, assim como alguém que ganha dez mil reais por mês acha que é rico. Em suma: No fim das contas, são várias as camadas desse sistema de controle.

    • HQ’s com Café

      O grande ponto é: não importa para onde corramos, tudo faz parte do sistema. O que muda é que em algumas camadas você controla, em outras, é controlado.

      Abraço.