Euro Cine | Um Lobisomem Americano em Londres

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Opinião com Café.
Clayton Alexandre Zocarato.

Um gosto de humor negro habita o universo desse clássico, do terror que se tornou “Cult”, devido ao exibicionismo sem limites e pudor, das cenas de transformação, bem como, a uma pitada de sarcasmo, impregnado em ações, aos quais seus personagens estão alinhados, em um ambiente mental de confusão entre a realidade e a imaginação.

Não se trata somente da clássica idolatria e clichês do “homem lobo”, como um atenuante de drama a inconsciência moral em se cometer assassinatos, não contendo um sentido da culpabilidade natural ao qual cada “ser” contém.

O diretor estadunidense John Landis (1950) lançou um olhar diferente acerca dos filmes de lobisomens, mostrando lados mais humanizados do “licantropo”, aos quais sejam arquejantes, não unicamente as questões metafísicas, bem como a uma tradição de levar os filmes de distorção da realidade, dando um viés dramático da luta “de um contra eu”, existente em torno de personalidades que procuram esconder o lado sombrio de suas mentes.

David Kesseler (David Naughton – 1951) foi ovacionado pela contundente e dramática interpretação durante a metamorfose terrível de passagem do homem para o animal, contando junto com a Griffin Dunne (1951), como Jack Goodman companheiro assassinado no inicio do filme (ficaria famoso como o par de Madonna (1958)  “Em Quem É Essa Garota”, de 1987), pelo lobisomem que atormenta a região “East Proctor”, no interior da Inglaterra, e que volta depois na forma de um “morto-vivo”, alertando o amigo dos perigos ao qual irá enfrentar, com a maldição que herdou depois do ataque do “lobo”.

“Isso causa uma confusão analítica de interpretações dentro dos termos de conceitos alijados aos filmes de horror, “já que não fica claro” que durante as aparições de Jack, uma mistura de zumbi com fantasma fica exalada ao espectador.

Uma marca psicanalítica desse filme, são que as vítimas feitas por Kesseler, na forma monstruosa de lobisomem, voltam para assombrar sua forma humana, cobrando que se mate para que possam ter o “descanso eterno” merecido, condenadas a vagar pela terra por causa da brutalidade de sua morte não natural, só podendo encontrar a luz quando a maldição do lobo for quebrada, esses fatos da aparição de suas vítimas não fica explicada durante o filme, uma lacuna sensível em sua sinopse.

A questão do suicídio fica mais do exalado, nesse princípio de sacrifícios em torno de uma causa, aos quais dentro de comparações metodológicas, podem ser, assimiladas aos feitos de um fanatismo exacerbado do “auto sacrifício” em torno do bem estar do próximo.

Isso pode vim a ser comparado, aos caminhos feitos por Cristo durante sua “paixão”,  comparado a sua marcante fala, “pai, perdoa-os, pois não sabem o que fazem”, e de certa forma Kesseler não tem a menor ideia das barbaridades ao qual comete, e reluta em levar tal atitude a cabo, demonstrando um “narcisismo ético”, em se valorizar pelo amor que sente pela bela enfermeira Alex Price (Jenny Agutter – 1952, vencedora de dos BAFTA, inclusive por essa atuação) que acolhe, na ausência de sua família vivendo nos Estados Unidos.

Uma de suas cenas mais marcantes mostra Kesseler telefonando para sua família nos Estados Unidos, como se fosse uma despedida, e logo em seguida tenta corta os pulsos, mas um sentido de arrependimento é demonstrado, como uma forma exorbitante, que para o seu “mal”, uma eutanásia social se faz necessária, e isso é concretizado quando na cena de sua última transformação, ocorrida dentro de um sala de cinema  de filmes pornográficos, é encurralado, depois de uma intensa perseguição perpetuada polícia londrina, e termina morto a tiros ( balas normais, o filme não faz menção ao poder da prata para matar lobisomens e outros monstros).

Durante essa cena, a imagem da bela enfermeira Alex, dialogando e tentando vencer a barreira entre a loucura e a maldade em um beco escuro, que transpassa, “a maldição da lua cheia”, deixa a incógnita ao qual, a “fera” atacaria sim ou não ela.

A simbologia, que está incrementada ao longo de sua trama, enfoca elementos “freudianos”, misturando realidade com fantasia, no sentido a uma forte tendência do animalesco, como uma maneira a uma construção, de alterações psicanalíticas, que venham a comprometerem, a sanidade dos indivíduos.

Esse traço fundamental enfoca uma questão “darwinista”, ao qual o ambiente leva lapidar, princípios de uma evolução entre o racional e o emocional, se tornando um limiar estritamente ligado ao emocional, pois o hibridismo, tanto cultural, como a uma estética do filme, segundo os ideais do pensador francês Jacques Aumont (1942), “ao qual cada partitura da obra, provoque sensações dilapidadas de mensagens refletindo os conflitos existenciais do homem, tentando controlar seus ímpetos em busca de uma vida melhor e entender os mistérios que nos diferenciam, do grotesco e do animalesco”.

O sentido de “transformação”, em vencer as barreiras, do horror, demonstrando um lado humanístico, dentro do espaço doentio da insanidade, pode provocar uma neurose de identidade, nos gêneros a compreensão de uma vitalidade terna, a selvageria de um monstro, podendo esconder um lado fraterno, na busca de um perdão, pela culpa de não saber, o que faz, fazendo o fator humano um chocalho perante o poder sobrenatural, do desconhecido.

Assim, como também a questão do suicídio em torno de uma causa justa volta a elixir, como se sacrificar para evitar outras mortes, faz uma junção do bem estar das pessoas, vindo pela morte de um “cordeiro”, em um usufruto de tal ato, feito pelo amor a humanidade, submetendo a questões, voltadas como o “bem-estar”, de um pode, interferir na condição de vida de “todos”, como coloca Hannah Arendt (1906 – 1975), ou bem o “suicido como um valor altruísta”, paralelo às questões de Emile Durkheim (1858 – 1917).

Na Londres do inicio dos anos 80 do século XX, já tendo em seus espaços urbanos, abarrotados por propagandas de multinacionais, Landis enuncia o mito do “Lobo Assassino” perambulando em busca de sangue, mas poderíamos dizer que a monstruosidade não está tecida unicamente na aparência, e no horror de uma desconstrução existencial mórbida da realidade, e sim que David Kesseler, representa uma mistura a um pleito hilariante da crueldade humana, que leva a natureza humana, a sorrir para suas próprias misérias, e por trás de cada rosto humano, se esconde uma fera pronta para dar um bote, e entrever horrores dos mais nefastos certames, em busca da completa satisfação dos desejos e sentimentos mais escuros, escondidos em torno de cada mente.

Um Lobisomem Americano em Londres foi o precursor de uma onda de filmes acerca da maldição da lua cheia, que ganhou a companhia de “Bala de Prata” (1985), baseada em uma obra de Stephen King (1947), e anteriormente contando com contribuição  “Um Grito de Horror” também de (1981), que chocaram plateias com suas cenas de transformação, aliadas a barbárie dos assassinatos, levando a um impressionismo de como fazer do filme terror, um elemento de viagem psicodélica, mas ao mesmo tempo taxando um lado maniqueísta, e de que é necessário o mal, para um amadurecimento das mais profundas afetividades entre as pessoas.

O lado fantástico esgarçado, na compreensão do desconhecido, deixa um princípio ao qual o “homo-sapiens”, procura diante do seu nostálgico prelo de ansiar por novidades constantes no seu cotidiano, se enxergar, no que não conhece um caminho para renovação de suas energias, na jornada intrépida de alavancar saltos cada vez maiores para a compreensão do que não consegue dominar e possuir.

Dentro de uma metáfora dialética, John Landis, fez do seu “lobisomem quadrúpede” um mito “nietzschiano” ao qual o “super-homem”  em suportar todas as coisas, pode vim a conter um prosseguimento, de destruição da sua capacidade de racionalidade, perante seus desejos mais sombrios, e que o um extermínio da ética e do respeito pelo próximo, se esconde nos monstros que inventamos diariamente diante de nossas hipocrisias, de pequeno “Hitler”, que cada um de nós possui.

Cuidado, é noite de lua cheia, apesar de que o mal não escolhe lua para sondar nós incrédulos humanos do século XXI…

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Um Lobisomem Americano em Londres.
Filme com 1 hora e 37 minutos de duração.
Diretor: John Landis. | Terror – Fantasia | Reino Unido – Estados Unidos (1981)

Sinopse: David Kessler (David Naughton) e Jack Goodman (Griffin Dunne) são colegas de colégio, que vieram dos Estados Unidos para conhecer a Inglaterra. Pedindo carona nas estradas, eles chegam a uma pequena cidade. Lá vão ao bar, sendo friamente recepcionados pelos moradores locais. A situação piora ainda mais quando Jack pergunta o porquê do local ter velas e um pentágono na parede. Ao deixar o local, eles caminham por uma estrada deserta e enevoada. Logo percebem que um animal está cercando-os. Jack é então atacado por um enorme lobisomem, tendo seu corpo dilacerado. David foge, mas é também atacado. Ele fica apenas com cortes no rosto e nos ombros, o suficiente para que se transforme em um lobisomem.

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Henry Braga

Assisto preferencialmente o que não está na moda, gosto de livros, quadrinhos, séries e filmes. Também sei admirar DC e Marvel (sim, é possível), ainda tenho meu Super Nintendo. Seinfeld, Anos Incríveis e Watchmen são algumas de minhas preferências.